Uma amiga pediu para eu descrever a experiência que tive no Reino Unido e me sinto incapaz de expressar o que se passou, até porque ainda passa. É complicado mexer nas voltas de um caldeirão de eventos que se recicla a cada instante em temperadas etapas. Foi necessário aspirar o Rio de Janeiro outra vez, digo, o imaginário patriótico-ignorante que mantive na cabeça antes dela ser completamente chacoalhada de devaneios otimistas e pessimistas que brigam feito irmãos que nunca se deram bem e que, por intermédio do sangue, não conseguem se livrar um do outro.
A fraternidade os impulsiona a morderem-se incessantemente até que cada ferida viva adquira a cicatriz do consenso, para daí encararem a verdadeira tomada de decisão, aquela que gera mudança na essência, trazendo paz, segurança, autoconfiança, respeito mútuo, aceitação do que não pode ser mudado, entendimento de que o desistir não precisa vir carregado de frustrações ou sensações derrotistas - como se o fracasso tivesse que ser culpa de um, ou de outro. Como se a desistência não pudesse ser, também, uma alternativa positiva ou talvez a saída mais curta para a vitória pessoal, independente da cara que ela queira ter.
Não se abandona as dúvidas assim... sem arriscar tudo o que o coração ou a razão - depende de quem falar mais alto - exige. É preciso ir até o limite do sustentável, pirar, enlouquecer sem jamais ceder a caprichos irrelevantes. O excesso no jogar, tende a ferir os dois lados da moeda e mexer nesses extremos só provocaria mais discórdia entre os dois irmãos, intensificando a violência e confundindo os verdadeiros desejos, resultado da inércia em que me encontro agora.
Enquanto este dia não chega, enquanto o otimismo e o pessimismo que me governam não atingirem maturidade necessária para ao menos me dar equilíbrio nos momentos decisivos que me definem, minha gaveta, pra lá de bagunçada, guardará aquilo que pode ser passado, dobrará o que pode ser vestido e vestirá, diante do espelho da opinião esdrúxula, cada combinação quadrada, seja errônea ou assertiva, do meu novo sentido de belo, agora comandado apenas pelo amor próprio. É por ele que troco de roupa.
Mudar é bom, faz parte do trajeto. Assim se comportam os indecisos. Suas buscas inseguras quase sempre geram lindas metamorfoses. Mudamos porque somos assim, seres inconformados, graças a Deus. Porém é importante encontrar a hora exata entre a dúvida e o tempo. Porque este é irônico. É sarcástico. É filho da puta. Guerrear pela felicidade é humano, natural e até saudável. As armas utilizadas nessa penosa conquista é que vão definir o caráter humano. Tem de se ter cuidado em cada atitude para não fazer do desejo de mudança uma fábrica de atrasos.
É preciso se impor na mesma medida em que se faz necessário ajoelhar-se diante de um erro significativo. O perdão pode abrir portas. O orgulho certamente as fecha. Mas a falta de amor próprio, esta sim pode torná-lo um verdadeiro bucha, fadado a virar escravo da demagogia, sócio frustrado da reveza de falsas opiniões, que através da carência de capacidade para formar uma personalidade de máscaras propriamente sólidas, terão seus infelizes egos viciados em dias de sorrisos vãos. De larguras nem sempre verdadeiras, que servirão de alimento para uma vida cercada de medos e frustrações.
Enquanto as mordidas rolam solta, expressarei apenas o que sinto nesse exato instante, porque o amanhã pode me convencer de que o ontem não passou de invenção, e de que o hoje corre sem ser notado, porque os malditos irmãos não param de brigar.
Disseram a eles que quando se prova uma experiência de vida fora, a cabeça muda, a visão de mundo gira e a pessoa fica completamente dividida entre otimismos e pessimismos em relação a vários fragmentos da vida, como amores, amizades, família, lugar ideal para se viver, tudo entra em transe. Essa estranha desterritorialização desperta uma certa vontade de partir de novo. Mas para onde, e para que?
Prefiro pensar que não estou dividido. Fui multiplicado. Dessa soma vantajosa retirarei poderes suficientes para tomar decisões conscientes. Como se a saudade não entrasse para apavorar. Como se eu não enxergasse, de uma hora pra outra, a juventude carioca como uma das mais mal-educada, embora não tão perdida, e arrogante do planeta. Como se eu não achasse o país uma zona, uma desordem urbana sem controle em que a violência, o medo e a corrupção, apadrinham a cultura vergonhosa do jeitinho. Como se eu não achasse a comida inglesa uma porcaria, o tempo digno de suicídio, as pessoas fúteis e vazias, por vezes frias, sem a menor noção do que se passa fora daquele "Reino Unido".
Pelo menos era prazeroso ir pra casa sentindo uma paz indescritível reforçada pela segurança de um governo que respeita seu povo. Aonde o jovem, geralmente da direita, não precisa estufar peitinho e colocar corrente de prata no pescoço para se mostrar viril, ou, em sendo de esquerda, ninguém de barba por fazer puxará um trabuco de maconha - já que é proibido - enquanto ouve los-hemanos e reclama da vida e do sistema numa rebeldia-parasita. É óbvio que tô generalizando, mas às vezes o Rio parece ter sido dividido em dois padrões de juventude - salvo excessões, muitas. Uma querendo aparecer mais que a outra sobre diferentes formas e isso cansa. Ninguém realmente faz algo para mudar. Qualquer protesto toma forma de carnaval. "A esquerda é a direita que ainda não assumiu o poder", e só. Os interesses finais são sempre os mesmos, se-dar-bem. Esse país me irrita. Principalmente porque o amo e não quero vê-lo desse jeito. Escravizado. Enfraquecido. Um Estado maravilhoso, que já ditou moda, transformado em referência mundial do turismo sujo. Um estado que exportava cultura, entorpecido pelas doses homeopáticas de algum hipinotizante importado, e pra lá de barato.
A loucura do povo de lá também não fica pra trás. O consumo toma conta de uma forma em que não há tempo para sentimentalismos. Em que o individual impera sobre os indivíduos, formando uma oficina de representação em que para sobreviver é preciso atuar o tempo inteiro. Pobres personagens, atores que vivem em pé de guerra não-declarada, cujas simulações estão inseridas em suas veias desde que nasceram. Soldados criados para serem os melhores. É tudo um espetáculo, que dia após dia também ludibria nossa personalidade. Estamos absorvendo de lá aquilo que eles têm de pior. São medrosos por natureza interna, não há fatores externos que justifiquem tamanho medo, porque segurança eles têm. São masoquistas, adoram sentir pavor, nem que seja inventado. Paranóicos que mal se tocam. Falta afeto. Não é possível brincar com uma criança na rua sem que a mãe pense que você irá roubá-la. O romantismo há tempos virou coisa falida, maluquice de latino. Síndrome de Madeleine do cacete.
Diferentes lugares. Diferentes paranóias. Por enquanto vou assim, comendo pipoca e assistindo a luta bem de longe. Quando meus irmãozinhos resolverem parar de brigar e encontrarem um equilíbrio, viverei feliz, no lugar em que me sentir harmônico, se é que a culpa está realmente no lugar. Perdoem-me as generalizações radicais, sem elas não há fermento. Vai entender. Isso é briga de irmão. Coisa de família... melhor não se meter.